A “ALLATRA Nova Iorque” organizou um evento público dedicado ao impacto dos microplásticos e dos nanoplásticos nos animais e no ambiente.

28 May 2026
A “ALLATRA Nova Iorque” organizou um evento público dedicado ao impacto dos microplásticos e dos nanoplásticos nos animais e no ambiente.

Nova Iorque, 23 de abril de 2026 — A “ALLATRA Nova Iorque”, em parceria com o Centro Global de Investigação ALLATRA, organizou, no Civic Hall, um evento público noturno, no qual os habitantes de Nova Iorque se reuniram para debater questões científicas, estabelecer contactos e participar num debate aberto. Os oradores apresentaram os resultados das mais recentes investigações sobre a forma como os microplásticos e os nanoplásticos afetam os seres vivos que nos rodeiam, desde os ecossistemas marinhos e as florestas até às aves migratórias e aos animais de companhia. A apresentação baseou-se em conteúdos do documentário “Nanoplásticos. Uma Ameaça à Vida” e do relatório “Nanoplásticos: Análise Sistemática dos Riscos para a Saúde Humana, os Ecossistemas e o Ambiente”, publicados pelo Centro Global de Investigação ALLATRA, bem como em dados provenientes de outros estudos científicos.


O que é o plástico e por que razão nunca desaparece por completo? 

“Imaginem uma substância tão omnipresente e duradoura que foi encontrada no ponto mais profundo da Terra, no fundo da Fossa das Marianas, a quase 11 quilómetros de profundidade, e no ponto mais alto do planeta, no cume do Monte Evereste. Imaginem uma substância que ultrapassou todas as correntes oceânicas, todas as cordilheiras e todas as barreiras biológicas. Essa substância é o plástico.”

Foi com estas palavras que Olga Kotik, representante da Plataforma Cívica ALLATRA, deu início à apresentação, convidando o público a prestar mais atenção àquilo que a maioria das pessoas vê todos os dias, quase sem se aperceber.

O ponto de partida para a discussão foi uma mesa repleta dos mais diversos objetos de plástico: transparentes e opacos, rígidos e flexíveis, resistentes e frágeis. Como a oradora explicou, o plástico não é um material único, mas sim uma vasta categoria de polímeros sintéticos cuja produção envolve milhares de aditivos químicos diferentes. No entanto, praticamente todos os tipos de plástico partilham uma característica fundamental: a extrema durabilidade. Segundo dados da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, praticamente todo o plástico alguma vez produzido continua a existir no planeta, embora sob outra forma.

A oradora abordou, de seguida, a dimensão e as consequências dessa durabilidade: “No processo de decomposição, a partir de apenas um grama de plástico, podem formar-se, em última análise, mais de um milhão de biliões de partículas de nanoplástico — um número com quinze zeros. Posteriormente, estas partículas acabam por chegar ao solo, à água e ao ar e, até ao momento, desconhece-se como removê-las do ambiente.”

Olga Kotik, representante da Plataforma Cívica ALLATRA, participou no evento “Microplásticos e nanoplásticos: impacto nos animais e na natureza”, organizado pela equipa da ALLATRA em Manhattan, Nova Iorque 

Para explicar melhor o problema, a Olga convidou um voluntário da sala para realizar o experimento em tempo real. Dentro de quatro copos de vidro suspensos por fios encontravam-se quatro objetos: uma barra de cobre, uma tira de magnésio, uma agulha e um fósforo de madeira. Pediram ao voluntário que, sucessivamente, aproximasse dos objetos suspensos primeiro um pauzinho de madeira, depois uma tesoura e, por fim, um canudo de plástico. Nenhum dos objetos se moveu.

Em seguida, os objetos foram esfregados num tecido de lã e novamente aproximados dos objetos suspensos — o resultado manteve-se inalterado. No entanto, quando o canudo de plástico foi esfregado na lã e aproximado dos objetos, estes foram todos atraídos por ele. A audiência compreendeu imediatamente a essência do fenómeno: o plástico adquirira uma carga eletrostática. É precisamente esta propriedade que, como Olga explicou, pode ajudar as partículas de nanoplástico a interagir com as células vivas e a perturbar os processos elétricos que estão na base das funções vitais do organismo.


A natureza viva está sob ameaça

A Dra. Anastasia Pashigreva, investigadora e representante do Centro Global de Investigação ALLATRA, apresentou os resultados dos estudos sobre o impacto biológico do plástico. Explicou, em pormenor, a influência dos microplásticos e nanoplásticos nos ecossistemas oceânicos, na vida selvagem, nos insetos, nos animais de criação e nos animais de estimação.  

A Dra. Anastasia Pashigreva, investigadora do Centro de Investigação Global ALLATRA, participou no evento "Microplásticos e nanoplásticos: impacto nos animais e na natureza", organizado pela equipa ALLATRA em Manhattan, Nova Iorque

A investigadora começou a sua intervenção abordando o oceano, que constitui a base da cadeia alimentar marinha e é uma das principais vias de disseminação do nanoplástico na natureza. Como a Dra. Pashigreva explicou, o zooplâncton não consegue distinguir as partículas de microplástico do seu alimento natural, uma vez que estas podem assemelhar-se ao fitoplâncton em termos de tamanho, forma e até de sinais químicos.

A investigadora destacou ainda um estudo realizado em 2023 pela Universidade de Massachusetts Amherst, em colaboração com a Universidade Oceanológica da China, que demonstrou que os rotíferos trituram fisicamente o microplástico e o excretam sob a forma de nanoplástico. De facto, um único organismo é capaz de produzir até 366 000 nanopartículas por dia.

“Não estamos perante um problema estático de poluição”, observou a Dra. Pashigreva. “Trata-se de um processo que se autoalimenta.”

A poluição propaga-se, assim, rapidamente por toda a cadeia alimentar. Partículas de microplástico foram detetadas em 96% das amostras de sardinhas analisadas, em mais de 90% das anchovas, bem como no trato gastrointestinal e nas brânquias de 88% dos peixes analisados.

A situação não é menos preocupante no que diz respeito às populações de aves. Só na América do Norte, nos últimos 50 anos, desapareceram cerca de três mil milhões de aves, o que corresponde a quase um quarto da população de aves do continente.

A Dra. Pashigreva descreveu um caso que demonstra claramente a dimensão desta crise:  “Do estômago de uma cria de andorinha-do-mar-de-patas-claras, com apenas 90 dias de vida, foram retirados 403 fragmentos de plástico. Esta ave nunca tinha voado nem entrado em contacto com o mar. Foi o plástico que a matou, pois os progenitores alimentaram-na com ele desde o momento em que nasceu, confundindo-o com peixe.”

Os polinizadores também estão sob uma pressão crescente. Desde meados do século XX, as populações de abelhas na Europa e nos Estados Unidos diminuíram mais de 30%. O seu desaparecimento representaria uma das maiores alterações ecológicas da era moderna, uma vez que as abelhas são responsáveis pela polinização de cerca de 75% das culturas agrícolas e de 90% das plantas silvestres com flor.

Sessão de perguntas e respostas durante o evento «Microplásticos e nanoplásticos: impacto nos animais e na natureza», organizado pela equipa da ALLATRA, em Manhattan, Nova Iorque 

A Dra. Pashigreva explicou que as partículas de nanoplástico são capazes de penetrar no organismo das abelhas através da cutícula e de alcançar o cérebro em apenas três dias, provocando alterações na memória, na orientação espacial e na capacidade de navegação.

“Quando as abelhas perdem a capacidade de se orientarem no espaço, deixam de se lembrar de onde recolheram o néctar e não conseguem encontrar o caminho de regresso à colmeia. Não estamos apenas a perder abelhas. Estamos a pôr em risco a base do nosso sistema alimentar”, acrescentou.

O tema dos animais de estimação revelou-se particularmente próximo e pessoal para muitos dos presentes. Foram detetadas partículas de microplástico nos órgãos de mais de 70% dos gatos e cães examinados, e estudos realizados nos Estados Unidos sobre alimentos para animais de estimação revelaram uma contaminação significativa por plástico, tanto nos destinados a gatos como nos destinados a cães.

“Os vossos animais de estimação podem ser alguns dos seres vivos mais vulneráveis do planeta», observou a Dra. Pashigreva. «Num certo sentido, constituem um sistema de alerta precoce. Quando observamos um aumento das doenças da tiroide, dos casos de cancro e das perturbações reprodutivas nos nossos animais de estimação, devemos refletir sobre o que os seus organismos estão a tentar sinalizar.”

Por fim, partilhou uma reflexão que teve grande impacto junto do público: “Os animais não podem falar por si próprios. As abelhas que perdem a capacidade de encontrar o caminho de regresso à colmeia não nos podem dizer o que lhes está a acontecer. Uma cria de paínho com o estômago cheio de plástico não consegue dirigir-se aos legisladores. Mas nós sabemos. E isso significa que a responsabilidade recai sobre nós.”

 

Soluções existentes e respetivas limitações

Steven Kasten, porta-voz da Plataforma Cívica ALLATRA, abordou a questão das limitações de algumas das abordagens mais comuns para resolver o problema da poluição por plástico. Por exemplo, a reciclagem do plástico, frequentemente apresentada como a principal solução para o problema, pode, em alguns casos, acelerar a sua decomposição em vez de a impedir.

“Não podemos resolver este problema apenas com a reciclagem», afirmou Kasten. «A reciclagem mecânica submete o plástico a um impacto intenso, nomeadamente aquecimento, atrito e trituração, o que leva à sua degradação. O plástico reciclado pode libertar micropartículas mais facilmente do que o plástico virgem e o próprio processo de reciclagem pode gerar mais nanoplástico.”

Steven Kasten, representante da Plataforma Cívica ALLATRA, participou no evento “Microplásticos e nanoplásticos: impacto nos animais e na natureza”, organizado pela equipa da ALLATRA em Manhattan, Nova Iorque

Um paradoxo semelhante verifica-se também nas tentativas de limpeza dos oceanos. Segundo as estimativas, encontram-se já nos oceanos cerca de 200 milhões de toneladas de plástico, mas as operações de limpeza conseguem remover apenas cerca de 20.000 toneladas por ano, ou seja, menos de 0,01% do volume total.

Muitos sistemas de limpeza atuam nas águas superficiais, onde a concentração de plâncton, ovos de peixe e larvas é particularmente elevada. Este facto suscita sérias preocupações, uma vez que, durante a recolha dos resíduos, os organismos marinhos podem também ser capturados acidentalmente ou sofrer danos. Este aspeto é especialmente importante, pois o plâncton constitui a base dos ecossistemas marinhos e é responsável pela produção de mais de 50% do oxigénio da Terra.

Como exemplo mais encorajador, Steven referiu o recente lançamento do programa STOMP pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, anunciado em 2 de abril de 2026. No âmbito desta iniciativa, serão investidos, ao longo de cinco anos, 144 milhões de dólares no estudo dos processos de acumulação de microplásticos e nanoplásticos no organismo humano, dos seus efeitos biológicos e das possíveis formas de eliminar estas partículas do organismo. «Trata-se de um passo importante na direção certa», afirmou Steven, «mas é apenas o início.»

O representante sublinhou que a superação da crise associada aos microplásticos e nanoplásticos exige um esforço coordenado da comunidade científica internacional e uma revisão profunda das abordagens adotadas no desenvolvimento e na implementação de soluções. A título de exemplo, Steven referiu que o processo normal de aprovação de medicamentos pela Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos pode demorar entre 10 e 15 anos. A este ritmo, os ecossistemas, já sujeitos a uma pressão crescente, poderão simplesmente não resistir.

Sessão de perguntas e respostas e momento de convívio entre os participantes no evento “Microplásticos e nanoplásticos: impacto nos animais e na natureza”, organizado pela equipa da ALLATRA em Manhattan, Nova Iorque 

Para concluir, a Dra. Pashigreva dirigiu-se a todos os presentes com uma mensagem fundamental: “A questão com que encerramos a nossa apresentação não é, de forma alguma, retórica. Talvez seja uma das questões mais urgentes da ciência e da política pública da atualidade: o que podemos fazer? Podemos começar por reconhecer que este problema é demasiado importante para ser ignorado e demasiado grave para continuar a ser adiado.” 


A pergunta que ficou na memória do público

A noite terminou com uma longa e animada sessão de perguntas e respostas. A última pergunta foi colocada por Julian Flores, estudante finalista da Universidade de Fordham. Perguntou aos oradores como explicariam a uma criança de seis anos a importância da crise relacionada com os microplásticos e os nanoplásticos, de forma a que ela conseguisse realmente compreender a sua importância. 

Sessão de perguntas e respostas e networking no evento “Microplásticos e nanoplásticos: impacto nos animais e na natureza”, organizado pela equipa da ALLATRA em Manhattan, Nova Iorque

Ao partilhar as suas impressões, o Julian Flores afirmou ter ficado profundamente sensibilizado com a ideia de que tudo aquilo que hoje amamos poderá desaparecer amanhã devido à poluição causada pelo plástico. Acrescentou ainda que, para as crianças, as nossas ações têm muito mais significado do que as palavras. Na sua opinião, o exemplo dado pelos adultos terá sempre mais impacto do que quaisquer explicações.

Randy Baichich, criador de conteúdos dedicado ao tema da saúde dos oceanos e presente no evento para recolher material para os seus canais, afirmou que esta iniciativa o ajudou a compreender melhor a dimensão das consequências ambientais da poluição por plástico.

Networking no evento “Microplásticos e nanoplásticos: impacto nos animais e na natureza”, organizado pela equipa da ALLATRA em Manhattan, Nova Iorque

“A maior parte do meu trabalho está relacionada com o oceano, por isso, hoje foi particularmente interessante para mim conhecer outras perspetivas. Ouvir alguém profundamente envolvido nestas investigações falar sobre a floresta, sobre a forma como tudo está interligado, sobre o sofrimento das aves e das abelhas e sobre a forma como tudo isto se relaciona mudou literalmente a minha perceção da dimensão do problema.”

O impacto económico do declínio da população de abelhas foi o aspeto que mais o impressionou: «Se as abelhas sofrem, os prejuízos para a nossa economia ascendem a 500 mil milhões de dólares e, normalmente, nem sequer pensamos nisso.»

Johann Hochtialik, que chegou a Nova Iorque vindo de Granada, um Estado insular das Caraíbas, para discursar na ONU, falou sobre este problema, sublinhando a sua urgência.

Networking no evento “Microplásticos e nanoplásticos: impacto nos animais e na natureza”, organizado pela equipa da ALLATRA em Manhattan, Nova Iorque

“O problema global dos microplásticos e dos nanoplásticos exige a procura urgente de soluções”. Identificou o fosso entre aquilo que a ciência já sabe e o nível de informação da sociedade como um dos principais obstáculos: “Os dados científicos ainda não chegam às pessoas na medida necessária para que o mundo finalmente desperte e encare com lucidez o que está a acontecer.”

No entanto, esta noite deixou-lhe um sentimento de esperança: “O primeiro passo para resolver qualquer problema é tomar consciência da sua existência. Se o problema existe, é preciso, antes de mais, reconhecê-lo. Só depois surgirá a solução.”

Networking no evento “Microplásticos e nanoplásticos: impacto nos animais e na natureza”, organizado pela equipa da ALLATRA em Manhattan, Nova Iorque

A ALLATRA expressa o seu sincero agradecimento ao Civic Hall por ter permitido a realização deste evento nas suas instalações e por ter participado na sua organização. O seu apoio constante ao diálogo sobre questões ambientais e de saúde pública demonstra um profundo compromisso com os princípios da participação cívica e do bem-estar da sociedade.


Sobre o Civic Hall

O Civic Hall é um centro ultramoderno situado na Union Square, em Nova Iorque. Foi criado com uma ideia simples: reunir pessoas em torno de oportunidades de desenvolvimento, colaboração e fortalecimento da comunidade.

Atualmente, o Civic Hall tem como missão potenciar oportunidades num espaço tão diverso quanto a cidade onde se encontra. Disponibiliza as suas instalações para os mais variados tipos de eventos, desde programas educativos e apoio a startups até à realização de exposições de arte e receções de casamento.

 

Sobre a ALLATRA

A ALLATRA é uma plataforma cívica internacional, com um centro de investigação nos Estados Unidos (Centro Global de Investigação ALLATRA), dedicada à análise abrangente das alterações climáticas e ambientais, ao estudo do impacto dos microplásticos e dos nanoplásticos, bem como à promoção da cooperação intercultural e à defesa dos direitos e das liberdades fundamentais do ser humano.

Em reconhecimento do seu compromisso com a proteção do ambiente e de toda a criação, a ALLATRA recebeu, em 2024, a Bênção Apostólica de Sua Santidade o Papa Francisco. Em 2025, Sua Santidade o Papa Leão XIV concedeu igualmente a Bênção Apostólica ao presidente da ALLATRA e a todos os seus voluntários.


Contacto para a comunicação social: [email protected]